sábado, 10 de novembro de 2012

Eternos Tabus


“Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite”. (Nelson Rodrigues)

Se vivo, este ano  Nelson Rodrigues completaria cem anos. Pernambucano, iniciou a carreira de jornalista em 1925 com treze anos de idade, na editoria de polícia do jornal A Manhã, fundado por seu pai Mário Rodrigues no Rio de Janeiro. Após  experiências como repórter policial, Nelson adquiriu bagagem suficiente para escrever peças teatrais sobre a realidade da sociedade.

Ele colocava em pauta discussões  de elementos morais, como aborto, traição e prostituição e, por causa disso, foi um dos autores brasileiros mais censurados. Apesar de reacionário, como ele próprio afirmava ser, foi revolucionário, devido a estrutura das peças.

Ao contrário do teatro que era feito até então, seu texto relacionava diversos tempos e situações para traduzir uma visão mais dinâmica da realidade, seja ela consciente ou inconsciente. A linguagem viva e coloquial era escrita diretamente para classe média carioca, principalmente do subúrbio. 

 “Curioso espreitar também que os temas abordados por Rodrigues, relativos à questão dos homossexuais, negros e mulheres nas esferas pública e privada, se mantêm atuais na contemporaneidade. Isso indica que o pensamento conservador se vê presente na sociedade, que provavelmente percorreu um processo hereditário”, explica o antropólogo César Siqueira.

O pensamento do autor na época ilustra a frenesi de um intelectual em relação à hipocrisia que passeia na sociedade brasileira até os dias atuais.

Apesar de o Brasil ser um país com quantidade expressiva de analfabetos, o culto e estudioso Nelson Rodrigues conseguiu se relacionar com a maioria a partir da expressão da realidade e fazer com que sua imagem seja lembrada até hoje.

“O modo grosseiro e direto de escrever nos dá a impressão de um homem rígido, mas que no decorrer do texto se transforma em emocional”, explica a socióloga Fátima Antunes, autora do livro Com brasileiro não há quem possa (Editora da Unesp, 2004). E completa: “O autor pode ser considerado uma figura de identidade nacional pela proximidade que tinha com o público, tanto como cronista quanto como dramaturgo.”


Foto: Mayra Cioffi/  Fátima Antunes, em palestra aos alunos da PUC Campinas


Em entrevista ao Portal NE10, Maria Lúcia Rodrigues, filha do autor e doutora em educação pela UFRJ, atualiza os tabus desnudados pela obra do seu pai.

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