“Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos
Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro
é toda tecida de humilhações. Nós tratamos com uma cordialidade que é o
disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite”.
(Nelson Rodrigues)
Se vivo, este ano Nelson Rodrigues completaria cem anos. Pernambucano,
iniciou a carreira de jornalista em 1925 com treze anos de idade, na editoria
de polícia do jornal A Manhã, fundado
por seu pai Mário Rodrigues no Rio de Janeiro. Após experiências como
repórter policial, Nelson adquiriu bagagem suficiente para escrever peças
teatrais sobre a realidade da sociedade.
Ele colocava em pauta discussões de elementos morais, como aborto, traição e prostituição e, por causa
disso, foi um dos autores brasileiros mais censurados. Apesar de reacionário,
como ele próprio afirmava ser, foi revolucionário, devido a estrutura das
peças.
Ao contrário do teatro que era feito até então, seu
texto relacionava diversos tempos e situações para traduzir uma visão mais
dinâmica da realidade, seja ela consciente ou inconsciente. A linguagem viva e
coloquial era escrita diretamente para classe média carioca, principalmente do
subúrbio.
“Curioso espreitar também que os temas
abordados por Rodrigues, relativos à questão dos homossexuais, negros e
mulheres nas esferas pública e privada, se mantêm atuais na contemporaneidade. Isso
indica que o pensamento conservador se vê presente na sociedade, que
provavelmente percorreu um processo hereditário”, explica o antropólogo César
Siqueira.
O pensamento do autor na época
ilustra a frenesi de um intelectual em relação à hipocrisia que passeia na
sociedade brasileira até os dias atuais.
Apesar de o Brasil ser um país com
quantidade expressiva de analfabetos, o culto e estudioso Nelson Rodrigues conseguiu
se relacionar com a maioria a partir da expressão da realidade e fazer com que
sua imagem seja lembrada até hoje.
“O modo grosseiro e direto de escrever
nos dá a impressão de um homem rígido, mas que no decorrer do texto se
transforma em emocional”, explica a socióloga Fátima Antunes, autora do livro Com brasileiro não há quem possa
(Editora da Unesp, 2004). E completa: “O autor pode ser
considerado uma figura de identidade nacional pela proximidade que tinha com o
público, tanto como cronista quanto como dramaturgo.”
| Foto: Mayra Cioffi/ Fátima Antunes, em palestra aos alunos da PUC Campinas |
Em entrevista ao Portal NE10, Maria Lúcia Rodrigues, filha do autor e doutora em educação pela UFRJ, atualiza os
tabus desnudados pela obra do seu pai.
Nenhum comentário:
Postar um comentário